Falamos muito de técnicas, objetivos, avaliação, intervenção e formação. Falamos das necessidades das pessoas que acompanhamos e da importância de construir intervenções suficientemente ajustadas à singularidade de cada caso.
Falamos menos, porém, sobre o que significa, para quem acompanha, estar diante do sofrimento de outra pessoa e ter que dispor seu corpo para a intervenção.
Isso se torna especialmente evidente quando trabalhamos com crianças que apresentam necessidades complexas de intervenção: dificuldades importantes de comunicação, desregulação, particularidades sensoriais, hiperatividade, comportamentos autolesivos, dificuldades na organização corporal ou na relação com o ambiente. Nesses contextos, a intervenção não acontece apenas por meio daquilo que sabemos e tampouco somente pela palavra. Ela acontece também através do corpo.
O corpo do profissional entra na cena, recebe o que acontece e participa das condições que tornam possível o encontro. E isso nos coloca diante de uma dimensão da clínica que, embora esteja presente o tempo todo, nem sempre é suficientemente pensada: o que acontece com o corpo de quem sustenta?
O terapeuta não está fora da cena
A partir da psicanálise, sabemos que a relação terapêutica não é um encontro entre alguém que possui um problema e outro que, a partir de uma suposta neutralidade exterior, aplica uma solução.
A transferência introduz o terapeuta na cena.
Aquilo que o paciente deposita no vínculo, aquilo que espera, rejeita, provoca, repete ou coloca em jogo na relação com o outro também nos afeta. Os diferentes desenvolvimentos do conceito de contratransferência também nos lembram que o profissional não é uma superfície neutra diante daquilo que acontece no encontro.
Essa dimensão torna-se ainda mais evidente quando trabalhamos com pessoas cuja comunicação não passa prioritariamente pela palavra.
Antes de existir um discurso que possamos interpretar, existem corpos.
Existem tensões, ritmos, aproximações e afastamentos, movimentos, sons, silêncios, olhares, alterações tônicas, acelerações e pausas. O terapeuta recebe tudo isso e responde também a partir do próprio corpo.
Por isso, quando falo em “colocar o corpo”, não estou utilizando apenas uma metáfora.
Em determinadas intervenções psicomotoras, sensoriais e de Arte Clínica, o corpo do profissional faz parte das condições que permitem a construção do encontro. A presença, o ritmo, a distância, a voz, a postura, a intensidade e a capacidade de regular a própria ativação podem tornar-se elementos concretos da intervenção.
Sustentar sem absorver
Colocar o corpo, entretanto, não significa carregar tudo.
Podemos estar profundamente implicados sem ficarmos presos; podemos nos deixar afetar sem confundir aquilo que pertence ao outro com aquilo que pertence a nós; podemos utilizar nossa sensibilidade como instrumento clínico sem transformá-la em um lugar permanente de desgaste.
O sofrimento do outro pode mobilizar algo em nós. Pode produzir cansaço, impotência, frustração, tristeza, urgência, desejo de reparar, necessidade de fazer mais ou a sensação persistente de não estar fazendo o suficiente.
A formação clínica não deveria nos ensinar a não sentir.
Deveria nos ajudar a reconhecer o que fazemos com aquilo que sentimos.
Não se trata de construir uma distância asséptica diante do paciente, como se a neutralidade significasse não ser afetado. Trata-se de desenvolver consciência suficiente para reconhecer o que acontece em nós sem agir automaticamente a partir disso.
Há uma diferença importante entre sustentar e carregar. Entre estar disponível e sentir que precisamos resolver tudo. Entre nos implicarmos em um vínculo e perdermos nossos próprios limites dentro dele.
É nesse espaço que a supervisão, a análise pessoal e a formação contínua adquirem um valor fundamental.
Uma clínica que também precisa do corpo
Quando o trabalho terapêutico exige presença corporal, essa dimensão se torna ainda mais evidente.
Uma criança pode precisar que o adulto regule a própria presença para conseguir encontrar-se com ela. Em determinados momentos, será necessário movimento; em outros, quietude. Às vezes, uma voz que organize; outras vezes, silêncio. Pode ser necessário acompanhar um ritmo, marcar um limite, oferecer uma determinada distância ou sustentar uma proximidade.
Isso implica uma forma de escuta que não é exclusivamente cognitiva.
É uma escuta tônica, sensorial, espacial, rítmica e relacional.
Minha formação artística continua acompanhando minha prática clínica justamente nesse ponto. Com o tempo, fui compreendendo que muitos dos conhecimentos que adquiri no teatro e nas práticas psicocorporais não ficaram restritos ao palco. Eles passaram a fazer parte da maneira como observo, escuto e intervenho.
O que aprendi no teatro antes de saber que também me serviria para a clínica
Durante minha formação em Artes Cênicas no Brasil, nos anos noventa, estudei o trabalho de alguns dos grandes renovadores do teatro contemporâneo: Jerzy Grotowski, Eugenio Barba, Jacques Lecoq, Peter Brook, Tadeusz Kantor e Pina Bausch.
Naquele momento, eu os estudava como referências de uma transformação profunda da linguagem teatral, que havia deslocado o centro da cena e ampliado a compreensão sobre a presença do ator.
Hoje reconheço o quanto desse aprendizado continua operando na minha maneira de compreender o trabalho clínico.
Não se tratava simplesmente de aprender a representar. Tratava-se de treinar uma presença.
Grotowski: o corpo como lugar de trabalho
No trabalho de Jerzy Grotowski, a cena podia ser despojada de muitos de seus elementos tradicionais para concentrar-se na relação entre ator e espectador e, sobretudo, no trabalho do ator sobre si mesmo. Sua investigação corporal buscava atravessar resistências e transformar corpo, voz e ação em matéria de pesquisa.
Essa perspectiva me parece especialmente fecunda para quem acompanha outras pessoas.
Antes de pensar apenas no que fazer com o outro, precisamos reconhecer a partir de qual corpo estamos entrando na cena.
Um corpo esgotado não percebe da mesma maneira. Um corpo acelerado não escuta da mesma maneira. Um corpo desconectado também não.
O estado corporal do profissional não é, portanto, um detalhe secundário da intervenção. Ele participa daquilo que pode ou não acontecer no encontro.
Barba: a energia como presença organizada
Eugenio Barba levou essas investigações para a Antropologia Teatral, estudando princípios técnicos da presença cênica em diferentes tradições culturais. Seu trabalho com o Odin Teatret foi construído através de um rigoroso treinamento físico e vocal, e posteriormente a ISTA aprofundou a investigação sobre os princípios que permitem construir uma presença eficaz do ator ou do bailarino.
Sua maneira de pensar a energia me interessa particularmente.
Não necessariamente como algo misterioso, mas como uma capacidade de organizar o potencial muscular e nervoso dentro de uma situação. A questão não seria simplesmente “ter energia”, mas saber modulá-la e torná-la disponível para a ação e para a presença.
Isso encontra uma ressonância importante na clínica.
Trabalhar com uma criança altamente desregulada não significa que o terapeuta precise aumentar sua própria ativação para acompanhá-la. Muitas vezes, precisamos justamente do contrário: regular nossa própria intensidade para oferecer outra possibilidade de organização.
Isso também é colocar o corpo.
Lecoq: pensar com o corpo
Jacques Lecoq colocou o movimento no centro de sua pedagogia, articulando improvisação, análise do movimento e criação e explorando a relação entre corpo, espaço e ação.
Sua pedagogia questiona uma separação rígida entre corpo e pensamento.
O corpo não é apenas o instrumento que executa uma ideia previamente elaborada. O movimento também produz conhecimento.
Essa perspectiva se conecta diretamente com o trabalho psicomotor e com determinadas formas de Arte Clínica.
Há coisas que compreendemos porque conseguimos pensá-las. Outras começam a ser compreendidas quando conseguimos senti-las corporalmente.
O corpo, nesse sentido, não é apenas objeto de observação. Ele também é lugar de conhecimento.
Peter Brook: o espaço disponível
Peter Brook levou a pergunta pelo essencial para outro lugar. Sua concepção do “espaço vazio” não significava simplesmente retirar elementos da cena, mas descobrir aquilo que é realmente necessário para que o acontecimento teatral possa existir.
Na clínica, também precisamos de espaços vazios.
Espaços nos quais não seja necessário responder imediatamente. Espaços para observar antes de intervir. Espaços nos quais uma criança possa produzir algo que ainda não sabemos nomear.
E também espaços internos nos quais o terapeuta possa recuperar sua disponibilidade.
Nem toda intervenção precisa acontecer pela ação. Às vezes, a possibilidade de sustentar um espaço suficientemente aberto já constitui uma intervenção.
Kantor: memória, corpo e presença
Em Tadeusz Kantor, o corpo aparece frequentemente atravessado pela memória, pela repetição, pelos objetos e pela tensão entre o vivo e o inerte. Em A Classe Morta, por exemplo, corpos e objetos constroem uma cena em que memória e presença permanecem profundamente entrelaçadas.
Seu teatro não buscava simplesmente representar uma realidade, mas fazê-la aparecer de outra maneira.
Essa dimensão me interessa especialmente na clínica porque nos lembra que o corpo nunca é apenas corpo presente.
Ele carrega história, hábitos, aprendizagens, marcas e formas de relação. Pode carregar também aquilo que ainda não pôde ser colocado em palavras.
O corpo presente traz consigo uma história que nem sempre se apresenta como narrativa y desde a palavra.
Pina Bausch: aquilo que move o corpo
E, finalmente, Pina Bausch.
Seu Tanztheater rompeu muitas das fronteiras tradicionais entre dança e teatro. O gesto cotidiano, a palavra, a repetição, a relação e as experiências dos próprios intérpretes podiam transformar-se em matéria cênica.
O que me interessa particularmente em seu trabalho é o deslocamento da pergunta sobre como o corpo se move para aquilo que está movendo esse corpo.
Essa diferença tem uma enorme potência clínica.
Diante de uma criança, não se trata apenas de observar o que ela faz. É preciso também poder sustentar uma escuta sobre aquilo que está sendo colocado em jogo através desse corpo: o que o movimenta, o que o detém, o que precisa ser repetido, o que acontece quando alguém se aproxima, quando o ritmo muda ou quando deixamos de exigir uma determinada resposta.
O gesto deixa de ser apenas comportamento observado e passa a ser também algo a ser escutado.
E onde fica a energia?
Aqui aparece uma dimensão da minha prática que não quero esconder, porque faz parte do meu próprio percurso: o trabalho com a consciência corporal e energética.
Práticas como o Reiki fazem parte desse território.
Não considero necessário estabelecer uma oposição entre um olhar analítico e uma abordagem energética, desde que saibamos diferenciar os planos em que estamos trabalhando.
Do ponto de vista científico, não contamos com evidências que demonstrem a existência do suposto campo energético específico no qual o Reiki se fundamenta, e as pesquisas disponíveis sobre sua eficácia terapêutica permanecem insuficientes e inconsistentes.
Isso, entretanto, não elimina necessariamente o valor que determinadas práticas podem assumir para a experiência subjetiva de quem as pratica, para sua atenção corporal, sua regulação, sua percepção de si e seus modos pessoais de cuidado.
Para mim, existe aí um campo de interesse.
Não preciso transformar a energia em uma explicação científica para reconhecer que posso trabalhar com minha percepção da energia, meu tônus, minha respiração, minha atenção, minha presença e minha capacidade de estar corporalmente disponível.
Isso pode coexistir com uma perspectiva psicanalítica, desde que não confundamos os diferentes registros nem atribuamos estatuto científico àquilo que não o possui.